06
abr
2016

Raposa enfrenta problemas em setores mais básicos

A falta de atendimento em postos de saúde pública, de professores e merenda nas escolas, além da precária infraestrutura e os excesso de lixo nas ruas, deixam a população em estado vulnerável; prefeito não considera que existam tantas dificuldades.

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Rua Padre Newton Bello, na Vila Bom Viver (trecho ao lado da residência do Bombeiro Milfont).

O município de Raposa, na Região Metropolitana de São Luís, é um lugar onde se pode saborear as delícias do mar e passear por belas praias e dunas. Além de visitar vastas áreas de manguezais ainda preservados, e tudo isso em meio à vida pacata dos moradores. A equipe de O Estado Online descobriu que não é bem assim que a população de Raposa vê o município, principalmente na área da saúde, educação e infraestrutura.

A falta de atendimento nos postos de saúde e na Maternidade Municipal têm deixado famílias à mercê da sorte, como é o caso de Ranyere e Alaine Veloso, pais de Jonas, de 6 meses.

Quando o casal procurou atendimento na maternidade, a informação foi que não havia recursos para realizar o parto. “Jonas não nasceu em Raposa porque a única maternidade não tem recurso, e toda vez que chega na hora ‘H’ transferem para São Luís”, desabafa o pai.

Ainda de acordo com Ranyere Veloso, o atendimento nos postos de saúde da cidade não funcionam de forma correta. “Para você ter uma noção como funciona, um dia Jonas passou mal e tive de levá-lo no hospital meia-noite. Quando chegamos lá, estava fechado. Eu tive de abrir o portão e chamar o atendente, que estava dormindo. Mais à frente, a zeladora estava dormindo. Para piorar a situação, o médico também dormia”, narrou.

O pai de Jonas disse que o calvário não parou:“Tivemos que esperar o médico acordar e, quando veio, mal olhou para nossa cara e foi logo escrevendo. Em seguida, levamos o menino para tomar injeção, que é a única coisa que eles sabem fazer quando entramos na sala. Estavam lá o enfermeiro e a enfermeira se agarrando, quase indo para os ‘finalmentes’. Uma falta de respeito com o povo de Raposa”, disse Ranyere Veloso.

Sem saúde

Para o prefeito Clodomir Santos (PMDB), existe uma falha durante as trocas de plantões dos médicos. O problema ocorre somente com os que cumprem carga horária de 12 horas. “Nós temos o plantonista de 24 horas e o de 12 horas na Unidade Mista. Todos os dias temos médicos. O que ocorre é que quando há plantonista de 12 horas, nos intervalos de passar o plantão, o médico costuma atrasar. Se ele pegar um engarrafamento em São Luís, não vai chegar.

daO que está na unidade tem outro serviço e, quando termina o horário, sai. Para resolver o problema, só se pudéssemos colocar um médico nesse intervalo. Hoje é impossível, até pelo custo. Faltam médicos na troca de plantão”, explica o prefeito.

De acordo com o relatório do VO1º Ciclo do Programa de Fiscalização em Entes Federativos, que visa analisar a aplicação de recursos federais no município sob a respon­sabilidade de órgãos e entidades federais, estaduais e municipais ou entidades legalmente habilitadas, os problemas no sistema de saúde de Raposa vão além do que muitos imaginam.

Segundo as investigações do Programa de Fiscalização em Entes Federativos, foi concluído que a aplicação dos recursos federais para Atenção Básica de Saúde não foi realizada de acordo com o determinado, sendo observadas as seguintes falhas: recursos financeiros não foram movimentados na sua totalidade; descumprimento, por parte de alguns profissionais de saúde, de carga horária semanal de 40 horas previstas para atendimento na Estratégia Saúde da Família; estrutura física inadequada das Unidades Básicas de Saúde (UBS) do município e mais alguns pontos.

Educação

esoalO sistema de educação municipal em Raposa também apresenta falhas. A comerciante Ilsamar Rodrigues de Souza tem dois filhos matriculados na Unidade Escolar São Joaquim, e, desde o início do período letivo, vem convivendo com uma situação incômoda. Ela, que vende guaraná e lanches na porta da escola, reclama que quase todos os dias as crianças estão saindo mais cedo: “Eles não estão tendo nem três aulas por dia. Desde o início do ano que está assim. A direção nos informou que faltam professores”, lamentou ela, que é mãe de dois alunos, um do 2º e outro do 4º período.

A preocupação de Ilsamar de Souza é compartilhada por famílias que têm filhos estudando na rede de ensino do município, que faz parte de Região Metropolitana de São Luís. Além do problema com ausência de professores, alguns alunos e pais reclamam também da falta de merenda nas escolas.

NDRERecentemente, a Prefeitura de Raposa fez um seletivo para contratação de professores temporários, que se juntarão ao quadro de concursados, considerado insuficiente para atender à demanda. Até o fechamento desta matéria, a lista com os nomes dos docentes aprovados no certame já havia sido divulgada no site oficial da Prefeitura, mas eles ainda não haviam sido deslocados para a sala de aula.

O prefeito se defende e afirma que já realizou um seletivo para contratação de novos professores, garante que todas as escolas têm merenda disponível e que, devido à troca de comandos na gestão municipal por conta de processos judiciais, a administração de alguns recursos ficou comprometida.

No fim do ano passado, a Controladoria Geral da União divulgou um relatório que apresenta uma série de irregularidades na aplicação de recursos públicos federais no município, incluindo má gestão em um programa de apoio do Governo Federal à alimentação nas escolas de ensino básico do país e irregularidades na aplicação de verba destinada ao Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb).

De perto

boxEm uma tarde na Raposa, a equipe de oestadoma.com presenciou alunos de várias escolas sendo liberados mais cedo do que o normal. Na Unidade Integrada Professora Maria Rosa Reis Trindade, por exemplo, às 15h, todos já estavam na rua. Ao perguntar para eles o motivo da interrupção do horário, as respostas foram sempre as mesmas: “Não tinha professor para os próximos horários”. A doméstica Maria de Fátima Lima, que estava na porta da unidade de ensino para buscar o filho, lamentou.“Eles não têm professores e, com fome, têm de ir para casa. Muito triste”.

E assim foi presenciada a mesma situação nas escolas Vila Nova, Marcone Caldas, Unidade Integrada Sarney, Unidade Criança Esperança, São Joaquim e Maria Rosa Reis. Alguns pais e alunos lamentam também a qualidade da água disponível nas unidades de ensino e falta de material didático.


Fiscalização da CGU aponta irregularidades

Em uma auditoria feita pela Controladoria Geral da União (CGU), parte do 1º Ciclo do Programa de Fiscalização em Entes Federativos – que analisou gastos em 15 municípios da região Nordeste do país -, foram encontradas irregularidades na gestão de recursos federais destinados para a educação na Raposa. As visitas dos fiscais foram feitas entre 17 de agosto e 18 de setembro de 2015 e o resultado divulgado em dezembro do mesmo ano.

Entre os principais problemas encontrados pela CGU estão impropriedades e irregularidades em licitações, movimentação financeira dos recursos do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), mediante a utilização excessiva de contas bancárias e irregularidade na contratação temporária de professores da educação básica.

– Leia aqui o relatório da CGU na íntegra – 

Constam, ainda, no relatório, inadequações das condições de armazenamento e da forma de preparo da merenda escolar, assim como falta de transparência na comprovação da realização de ampla e documentada pesquisa de preços no mercado de varejo e de atacado na aquisição dos alimentos.

No início do mês passado, os professores de Raposa decidiram, em assembleia geral, aderir à paralisação nacional em defesa da educação, organizada pela Confederação Nacional dos Trabalhadores na Educação (CNTE).

Além das reivindicações do movimento em âmbito nacional, os docentes pediram melhorias nas condições de trabalho, material didático e até coisas básicas, como copos e colheres, que precisam ser divididos pelos alunos, segundo os docentes. Eles lamentaram também a falta de definição de um calendário de pagamento entre outros direitos que, segundo eles, são negados pela Prefeitura de Raposa.


 Município é pequeno, mas tem infraestrutura precária em muitas áreas

O município de Raposa é o menor entre os que formam a Região Metropolitana de São Luís. Segundo dados do último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população de Raposa é de 29.755 habitantes e está distribuída em pouco mais de 60 mil quilômetros quadrados de unidade territorial. O município pode ser pequeno, os problemas, não.

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Rua João Bragança, localizada na Vila Laci.

A falta de infraestrutura das ruas e avenidas do município é uma das principais reclamações da população raposense. As vias estão repletas de buracos e lama. Problemas que, para muitos, também começa a ser sentido no bolso. Que o diga o comerciante Antônio Ricardo dos Santos. A pequena quitanda que ele montou dentro de casa, na Rua da Paz, fica “ilhada” ao menor sinal de chuva.

“Não pode chover dois minutos que a rua já fica completamente alagada. E aí ninguém consegue chegar aqui na minha lojinha. As vendas caíram muito”, reclama o morador. O grande acúmulo de água também preocupa o comerciante por causa do aumento de casos de dengue e zika vírus registrados.

Outra moradora, Iracilda Alves, afirma que, por causa das péssimas condições da rua, os ônibus não passam mais pelo local, obrigando os usuários a percorrer longos caminhos.

Todos esses problemas, no entanto, parecem pequenos para os moradores da Rua João Bragança. Por lá, até o tráfego de pedestres é complicado. A rua nunca foi pavimentada, e, com as chuvas, acabou cortada ao meio. Enormes buracos foram abertos. Quando chove, eles ficam submersos, aumentando o risco de acidentes. Hoje, os moradores vivem receosos.

Segundo o operador de máquinas Edvan Rodrigues, a Prefeitura de Raposa sabe da situação da rua e nada faz para resolvê-la. “Eu já procurei a prefeitura diversas vezes, eles dizem que não têm recursos, que não podem fazer nada. Acho que estão esperando acontecer um acidente grave. Aí eles vão trabalhar, mas já vai ser tarde”, comenta.

Problemas

Problemas de infraestrutura são vistos em quase todas as ruas e avenidas do município. “A cidade parece que não tem prefeito. O nosso bairro está esquecido”, reclama Antônia Cristina, moradora do Residencial Pirâmide.

fsA sujeira também é problema no município de Raposa. Sem um local de depósito apropriado, o lixo fica espalhado pelas ruas e avenidas, atraindo ratos, urubus e insetos. O lixo também se acumula no entorno do Porto do Braga, onde pescadores e marisqueiros se reúnem para pesar o que foi pescado durante o dia, e também ao redor das casas das rendeiras. Fato que, para muitos, prejudica o turismo, que é um dos pontos fortes da economia do município.

“O turista chega aqui e até se espanta. É muito lixo espalhado. É plástico, pneu e resto de alimento. Tudo o que não presta fica espalhado. Qual o turista vai indicar uma cidade toda acabada para alguém?”, questiona a rendeira Maria do Carmo.

Justificativa

Em relação à infraestrutura das ruas do município de Raposa, o prefeito Clodomir Alves afirmou que havia um convênio com o Governo do Estado, no valor de R$ 1 milhão, para a pavimentação de algumas ruas. Mas que, na atual gestão, o dinheiro não está mais chegando.

Prefeito Clodomir diz que situação do município é normal.

“O pouco que nós estamos conseguindo fazer hoje é com recursos federais e do Município, que não são suficientes. Nós já vamos iniciar a pavimentação de quatro ruas na Vila Bom Viver. Outras ruas também serão contempladas”, afirmou o prefeito.

Clodomir Alves também reconheceu que sabe sobre os graves problemas da Rua João Bragança. Segundo ele, os reparos só poderão ser feitos quando as chuvas amenizarem.

Sobre o problema do lixo espalhado pelas ruas e avenidas, o prefeito afirmou que isso é devido, em parte, à quebra de parceria com o município de Paço do Lumiar.

“Em Raposa, nós ainda não temos um local apropriado para o depósito de lixo. Fizemos uma parceria com o município de Paço do Lumiar, mas recentemente, o prefeito informou que a população não estava mais aceitando que o nosso lixo fosse mandado para lá. Procuramos São Luís, que também fechou as portas para Raposa. Procuramos São José de Ribamar, e o município nos deu apenas 15 dias. O que nós tivemos que fazer, em caráter de urgência, foi uma dispensa de licitação para poder enviar o lixo de Raposa para o município de Rosário. Há um custo alto, mas é o que nós temos que fazer”, esclareceu o gestor.

Por Eduardo Lindoso, Daniel Moares e Luciano Dias. Do Jornal O Estado do Maranhão, publicação na página 4 (Cidades) da edição especial do último sábado(02)/domingo(03). Ilustrações do Blog.

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